Ricardo Teixeira renuncia à presidência da CBF
Anúncio foi feito na manhã desta segunda-feira por meio de uma carta. Ele também deixou a presidência do COL da Copa-2014
O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, renunciou ao cargo. O anúncio foi feito nesta manhã na sede da entidade pelo presidente em exercício, José Maria Marín, durante entrevista coletiva na presença de todos os presidentes de federações estaduais. O anúncio foi feito em uma carta de Teixeira, que estava há 23 anos no cargo.
- Deixo definitivamente a presidência da CBF com a sensação de dever cumprido - diz um trecho da carta.
FIM DE UMA ERA
Ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira havia assumido o cargo no dia 16 de janeiro de 1989 e teve um mandato recheado de vitórias e escândalos.
No campo das vitórias, ele levou o Brasil a conquistar duas Copas do Mundo - 1994 nos Estados Unidos e 2002 no Japão e na Coreia do Sul - e trouxe, em 2007, a Copa de volta ao país, dessa vez em 2014. Também instaurou o sistema por pontos corridos no Campeonato Brasileiro, criou a Copa do Brasil, reconheu títulos brasileiros e trouxe mais credibilidade ao decretar o fim das viradas de mesa.
Mas o mineiro nascido em Carlos Chagas no dia 20 de junho de 1947 ficou mais conhecido pelos escândalos na CBF. Décimo oitavo presidente da entidade, burlou a lei para se reeleger, antecipando o pleito e, anos mais tarde, estendeu o mandato para sete anos.
VIRADAS DE MESA E CONTRATOS DUVIDOSOS
Sua gestão foi marcada por três episódios de virada de mesa: em 1993 o Grêmio, rebaixado no ano anterior, disputou a Série A; em 1997, o Fluminense, rebaixado no ano anterior, jogou a Série A. Em 1999, o Tricolor foi campeão da Série C, mas acabou jogando a Séria A (Copa João Havelange) em 2000. E também por escândalos na arbitragem: em 1997, responsável pelo departamento na CBF, Ivens Mendes foi acusado de montar um esquema de favorecimento a algumas equipes. Em 2005, o juiz Edílson Pereira de Carvalho integrava um esquema de arranjo de resultados para um site de apostas. Partidas do Brasileiro tiveram de ser remarcadas.
Em 1996, assinou contrato milionário com a empresa de material esportivo Nike. A parceria, porém, foi alvo de uma CPI na Câmara dos Deputados a partir de 1998. O hoje ministro do Esporte Aldo Rebelo comandou a CPI e chegou a escrever um livro com Silvio Torres relatando as investigações sobre os negócios de Teixeira. Em janeiro de 2002, o presidente da CBF obteve liminar na Justiça proibindo a venda do livro. Na CPI, Teixeira contou com depoimentos de Zagallo, João Havelange e de Ronaldo.
ALVO DE CPI
Teixeira também foi alvo da CPI do Futebol, no Senado, a partir de 1998. Em 2000, prestou depoimento e foi acusado de lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, evasão de divisas, apropriação indébita. A CPI apontou gasto não declarado de US$ 400 mil na Copa Ouro de 1998, que a CBF pegou seis empréstimos com o Banco Delta a juros altos, que a entidade fez pagamentos de R$ 30 milhões, em três anos, para a agência de viagens SBTR. As tarifas eram altas e as despesas não eram devidamente registradas na CBF.
Em 2001, vendeu a sede da CBF, no Centro do Rio de Janeiro, para se isolar na Barra da Tijuca, na Zona Oeste, passando a pagar um aluguel de R$ 150 mil por um andar num edifício no condomínio Rio Office Park. Em julho de 2003, reportagem do LANCE! mostrou que Teixeira ganhou R$ 7 milhões entre 1995 e 1999, período em que a receita da CBF cresceu graças a patrocínio. Mas, enquanto o dirigente mais do que dobrou seu patrimônio, a entidade acumulou grande prejuízo.
Em 2007, trouxe para o Brasil sua segunda Copa do Mundo, agora em 2014. Também em 2007, sob influência de Teixeira e 12 governadores, a chamada bancada da bola agiu para impedir a instalação da CPMI do Corinthians/MSI. Em janeiro de 2009, usou dinheiro da CBF para comprar um jatinho. Gastou US$ 10 milhões (R$ 23,1 milhões no câmbio da época).
MAIS DENÚNCIAS E INÍCIO DA QUEDA
Em novembro de 2010, o LANCENET! trouxe reportagem mostrando que Ricardo Teixeira ficaria com os lucros da Copa do Mundo de 2014. Dois meses depois, o presidente da CBF mudou o contrato, mas sem especificar o destino dos lucros. No início de 2011, o deputado Anthony Garotinho tentou criar uma CPI para investigar as ações de Teixeira na organização da Copa. O político precisa de 171 assinaturas e chega a 146 em março. Mas, após uma visita do presidente da CBF a Brasília, 42 deputados retiraram suas assinaturas a favor da CPI.
Em maio de 2011, a rede britânica BBC, em reportagem do jornalista Andrew Jennings, afirmou que Ricardo Teixeira e Havelange, receberam US$ 9,5 milhões em propinas da ISL nos aos 90 para garantirem contratos de exclusividade em transmissões e patrocínios da Copa do Mundo. No mesmo mês, Teixeira foi acusado pelo ex-presidente da Associação inglesa de Futebol David Triesman, de ter pedido propina para apoiar a candidatura da Inglaterra para a sede da Copa do Mundo de 2018. A Rússia venceu a disputa.
Em agosto de 2011, reportagem do LANCENET! trouxe a informação de irregularidades no contrato do amistoso da Seleção Brasileira contra Portugal, em Brasília, em novembro de 2008.
LADO POSITIVO DA ERA TEIXEIRA
Títulos da Copa do Mundo
A Seleção voltou a ser campeã mundial em 1994, nos EUA. O feito se repetiria no Japão e Coreia do Sul, em 2002. O Brasil é o único pentacampeão do mundo.
Copa no Brasil
Em 2007, o Brasil ganhou a sede da Copa do Mundo de 2014. A competição mais importante do futebol mundial volta ao país após 64 anos.
Pontos corridos
Suportou a oposição da Globo, dona dos direitos de transmissão do Brasileiro, e, com apoio do Clube dos 13, instaurou os pontos corridos na Série A e, depois, na Série B.
Copa do Brasil
Criada em 1989, a competição deu oportunidade a diversos clubes em todo o Brasil. A partir de 2001, passou a dar vaga ao campeão na Libertadores.
Copa América
Foram dez edições durante a gestão de Teixeira. O Brasil conquistou cinco títulos, os dois últimos sem os principais jogadores e em decisões contra a rival Argentina.
Credibilidade
Depois de três viradas de mesa em sua gestão, Teixeira acabou com isso. Clube grande que hoje é rebaixado tem de obter a vaga na Série A dentro de campo.
Títulos brasileiros
Teixeira reconheceu como títulos brasileiros as conquistas anteriores à 1971, data da primeira edição do Campeonato Brasileiro.
LADO NEGATIVO DA ERA TEIXEIRA
Estatutos
Alterou por diversas vezes o estatuto da CBF para se beneficiar. Aproveitou a Copa de 2014 para tentar ficar até 2015. Não atuou pelo cumprimento do Estatuto do Torcedor.
Violência
Nada foi feito para dar segurança aos torcedores. A violência entre torcidas organizadas afasta o torcedor dos estádios e aumenta o risco de tragédias.
Bebidas alcoolicas
Venda proibida nos estádios em jogos organizados pela CBF. Clubes prejudicados e solução ineficaz para acabar com a violência nos estádios brasileiros.
Calendário
Prometeu adequar o brasileiro ao internacional, o que poderia gerar dinheiro para os clubes, com excursões e pré-temporadas. Ficou na promessa.
Futebol feminino
Só é lembrado em época de Jogos Olímpicos. Campeonatos fracos, sem nenhum investimento em atletas e sua formação em categorias de base.
Escândalos de arbitragem
Em 1997, o diretor de árbitros da CBF, Ivens Mendes, foi acusado de favorecer times. Em 2005, o juiz Edilson Pereira de Carvalho integrou esquema em site de apostas.
Viradas de mesa
Permitiu que o Grêmio, em 1993, e o Fluminense, em 1996, jogasse a Série A. Em 1999, o Tricolor venceu a Série C e foi direto para a Série A (Copa João Havelange).
Pirataria
Passivo diante da venda de produtos falsificados, que afetam ainda mais os cofres dos clubes, todos com uma grande quantidade de dívidas.
Parentes e amigos
Favorecidos em nomeações. A filha. Joana Havelange, está no Comitê Organizador da Copa de 2014. O tio, Marco Antônio Teixeira, foi secretário geral da CBF.
Publicidade
Contratos de patrocínio da entidade ficaram defasados e alguns deles acabaram se tornando alvo de disputas judiciais e investigações em Brasília.
Jogadores fora do Brasil
Teixeira nada fez para evitar o êxodo de jogadores para o exterior, fato que enfraquece as equipes brasileiras bem como o nível do Campeonato Brasileiro.
Clubes
Usou seu poder político e econômico em favor próprio e da Seleção. Clubes grandes seguem cada vez mais endividados e os pequenos sobrevivem à duras penas.
Doações a políticos
Nas eleições de 1998 e 2002, doou mais de R$ 1,6 milhão para a campanha dos integrantes da chamada “Bancada da Bola”, que tantou o ajudou diversas vezes.
Estádios precários
Precisou da confirmação da Copa do Mundo no Brasil para dedicar atenção e dar início à melhora dos palcos do futebol por todo o país.